A terapia do cemitério

IMG_2378Você já teve que andar por 30 minutos subindo e descendo morro em uma temperatura de -10°C? Eu já, e faço isso quase todos os dias. Como alguém que tem experiência no assunto eu vou descrever a experiência para você.

Aprimeira coisa que acontece quando você sai nesse frio é a dificuldade em respirar, no primeiro momento seu pulmão simplesmente não consegue, é como se não tivesse ar para respirar. Depois de uns 10 segundos e umas tossidas você consegue. Aí você começa a andar. Nesse momento você percebe de cara se tem alguma parte do seu corpo exposta. Se tiver uma frestinha entre o cachecol enrolado no rosto, se a touca não está cobrindo muito bem sua orelha, ou se a luva não é a ideal, você percebe na hora. Um frio congelante começa a invadir o seu corpo a partir dessas áreazinhas não muito bem protegidas. Depois que seus olhos lacrimejaram tanto que parece que você está chorando, eles finalmente se acostumam com o frio e param de te fazer chorar (se estiver ventando, esquece, você vai chorando até chegar no destino). Ao mesmo tempo que seus olhos estão lacrimejando, seu nariz começa a escorrer, é terrível, se você não tiver um lençinho, vai passar aperto. Até você se acostumar com isso tudo já se passaram 10 minutos, se durante esse tempo você estiver escutando uma música boa (John Mayer para mim), dá pra aguentar tranquilo.

Mas é aí que os problemas começam. À -10°C, não importa quão boa seja sua bota, e quantas meias você esteja usando, depois de 15 minutos à céu aberto, seus pés e mãos vão começar a queimar. Você não vai sentir frio nos pés e mãos (mas continua sentido frio no resto do corpo), mas eles vão queimar como se estivessem no fogo. Nessa hora você engole a dor e continua caminhando. Mas pelo menos para as mãos há algo que se possa fazer, eu geralmente tiro uma das luvas e coloco a mão gelada na cabeça dentro da touca, enroladinha nos meus cabelos. Deve ser bem estranho para as pessoas que veem uma mulher antando com a mão na cabeça, mas pelo menos minhas mãos estão quentinhas haha.

Na marca dos 20 minutos, você já tá quase pedindo pra sair. Suas extremidades queimam, seu nariz está escorrendo, seus olhos lacrimejando, no meu caso que tenho asma, eu já não estou conseguindo respirar bem… Nessa hora, o bicho pega. Depois de andar 20 minutos nessas temperaturas extremas, parece que seu corpo não aguenta mais. cada passo é dolorido e exautivo. Nesse momento me vem o choro.

Morar em Morgantown, WV e não ter um carro, significa ter que encarar isso todos os dias. Após ter andado 20 minutos, eu já estou longe o sificiente do campos mas não perto de casa o sufuciente ainda. Ninguém mais está andando perto de mim, eu já estou na área residencial, onde todos tem carro e não precisam andar para sair de casa. Ás vezes passa uma viatura da polícia e eu fico seriamente tentada a pedir uma carona. Mas o sentimento que mais me vem a mente é “que mundo injusto!” Todos passam por mim em seus carrinhos com aquecedores e ninguém se importa. Ninguém sabe como é difícil andar nessas temperaturas, niguém sabe que minhas mãos e meus pés doem, ninguém sabe que meu corpo está exausto de lutar contra o frio e eu sinto como se eu não conseguisse dar nem mais um passo… E ninguém liga. E nessa hora eu choro.

Choro pela dor que o frio causa, choro pela dor que a desigualdade causa. Pode parecer algo bobo, mas em uma cidade construída para carros, sem calçadas e sem um transporte público de qualidade, andar 2 milhas nessa temperatura me lembra como eu não tenho nada, nem um carrinho velho e baratinho que seja.

Nesse momento eu já estou andando por 25 minutos, só mais um pouquinho e eu já estou em casa. Só mais um morrinho, só preciso cruzar o cemitério. E cruzando o cemitério algo extraordinário sempre acontece. Eu percebo como a vida é bela.

snow in the graveyardQuando eu chego no campo aberto eu me lembro por que eu estou aqui. Todas aquelas lápides representam pessoas que não estão mais aqui, suas memórias são somente um nome em um pedaço de pedra. Isso me lembra do que eu não quero ser. Eu não quero ser aguém que vive uma vidinha focada em consumo e diversão, que trabalha a semana inteira pela sexta. Eu quero viver uma vida significante, eu quero deixar um legado nessa terra. E o caminho que eu escolhi para isso foi a Academia. Estudar no exterior é a realização de um grande sonho, e eu sempre soube que seria difícil.

Diante da grandiosidade dos meus sonhos e planos, passar frio e andar a pé se torna tão insignificante. Quem sou eu para reclamar? Eu estou aqui construindo meu futuro de significância, o que são 1h por dia na neve (30min para ir, e 30 min para voltar)?

Lá no cemitério, olhando para aqueles nomes, eu percebo quanto a minha vida é pequena diante da grandiosidade do mundo. Ali eu finalmente entendo que frio é suportável, e que o carro um dia vai vir.

Lá no cemitério a única coisa que importa é o sonho.