O dia que descobri minha invisibilidade

Como muitos de vocês sabem eu faço parte da Global Intervarsity Christian Fellowship ou simplesmente Global IV. O principal objetivo da Global IV é ser uma comunidade hospitaleira para alunos internacionais. E quando você é um aluno internacional por aqui, isso faz falta.

Alunos internacionais nos EUA não são bem vindos, e você é lembrado disso muitas vezes ao dia. Sabe qual é uma das palavras que são usadas para descrever estrangeiros? Aliens, e ela é usada viu! As pessoas simplesmente não gostam de estrangeiros. Eu não estou dizendo que as pessoas me tratam mal, elas simplesmente me ignoram. Me lembro quando eu era intercambista, das quatro matérias que fiz, em duas delas ninguém da sala conversou comigo o semestre inteiro.

Talvez a experiência que você teve nos EUA foi diferente, talvez você morou ou passeou em um lugar que tem um monte de estrangeiros, comunidades latinas, chinesas ou qualquer outra experiência cosmopolita. Mas aqui em West Virginia, isso não acontece. West Virginia é um estado branco, republicano e pobre. A maioria dos alunos que são daqui nunca conheceu sequer um estrangeiro antes de vir para a faculdade, e como bons americanos eles acham que todos estão aqui para invadir o país deles e roubar todos os empregos possíveis.

E quanto mais eu me envolvo com outros alunos internacionais através da Global IV eu percebo que essa é uma experiência universal, todos os alunos internacionais que eu conheço passam por rejeição e invisibilidade. Eu descobri a minha invisibilidade essa semana.

Eu já havia experimentado a rejeição, mesmo ela sendo muito menor na Grad School. Meus colegas grad students são mais internacionalizados, muitos deles já até viajaram para outros países (isso mesmo até, por que o americano médio não sabe que existem outros países). Quando estou entre meus colegas não me sinto rejeitada com frequência, eles conversam comigo, me fazem perguntas sobre meus país, e me convidam para grupos de estudos. Mas não são todos, eu diria que a metade dos meus colegas reconhecem a minha existência.

Quanto à minha invisibilidade, eu descobri na minha aula de IPE (Economia Política Internacional). A aula era sobre teoria da dependência (uma teoria de que teve sua origem na América Latina e um dos teóricos é o Fernando Henrique Cardoso), a nossa aula é em estilo de seminário todo mundo fala (somos 10 alunos no total). Por algum motivo alguém começou a falar sobre a copa do mundo desse ano (acho que era alguém falando como o time dos EUA vai ser um dos que mais vai viajar para jogar em diferentes cidades).

É claro que como cientistas políticos nós temos que falar das implicações políticas dos eventos, então alguém teve a brilhante ideia de demonstrar seus conhecimentos sobre a insatisfação do provo brasileiro com a copa do mundo. Depois outra pessoa fez o mesmo. Quando eu me dei por conta todo mundo estava falando sobre como o povo estava revoltado com a copa do mundo e quebrando tudo à beira de uma revolução. Essa discussão durou alguns minutos, e em momento nenhum alguém olhou para mim (você lembra que eu sou brasileira né? Haha) ou perguntou a minha opinião.

É claro que dei mesmo assim, levantei a minha voz e disse o que eu vejo. Disse sobre como os protestos não estão mais acontecendo, disse que eles não eram só contra a copa do mundo mas também contra a corrupção, falta de investimento na educação, saúde, transporte público e etc. Que eles eram muita reclamação e pouca ação, que as eleições desse ano vão ter o mesmo resultado de todas as outras e nada vai mudar devido aos protestos (riots, como eles chamam) por que o povo só reclama mas não sai da zona de conforto.

Não sei o que me espantou mais, o fato deles não saberem nada sobre o Brasil, deles acharem que sabem ou deles me ignorarem completamente enquanto falavam um monte de baboseira sobre meu país.  Não… sei sim.

Não posso julga-los por não saberem sobre meu país, eu não sei nada sobre Gana, ou Ucrânia, ou Canadá, nem sobre outros muitos países. Também não posso julga-los pela arrogância de saber o que na verdade eles não sabem, é por isso que somos alunos, para aprender o que não sabemos e saber direito o que só achamos que sabemos.

Mas o que me espontou mais foi o fato de eu ser invisível. A sensação se ter todos os meus colegas discutindo com a segurança de quem sabe sobre meu país sem nem ao menos olhar para mim foi a de invisibilidade. Eu não sei se quando você estava na faculdade você teve um colega de outro país mas eu tive. Todas as vezes que conversávamos sobre os países deles nós fazíamos um monte de perguntas para eles, eles não eram invisíveis para nós.

Eu não estou aqui reclamando ou dizendo para todo mundo como eu odeio meus colegas americanos. Eu sei que a estranhesa do desconhecido é própria da cultura deles, o que para nós como brasileiros é completamente incompreensível, nós amamos o deferente, o culturalmente diverso. Nem estou dizendo que eu odeio a minha vida (coisa de emo haha) por que quem me conhece sabe que sou uma exímia fazedora de amigos e não vou me intimidar pelos muros da invisibilidade. Eu vim aqui para aprender, crescer como acadêmica e como pessoa. E é isso que vou fazer, sem me importar com os que me ignoram.

Mas aos que insistem me ignorar, eu deixo um recado: Eu vou te perseguir, assombrar os seu sonhos, eu estarei lá quando você estiver maltratando um chinês ruim de inglês, eu vou atrás de você até você aprender que os estrangeiros são gente também, você vai se arrepender em me ignorar…

Brincadeira, só quero dizer mesmo que conhecer outras culturas é muito legal e que é impossível se arrepender de se abrir para isso.

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7 thoughts on “O dia que descobri minha invisibilidade

  1. O mais importante é sabermos quem somos, e isso filha vc sabe muito bem!!!! Vc é filha do Deus altíssimo o todo poderoso, o Senhor dos Senhores. Ele te criou, e está ao seu lado todos os dias!!!!

  2. Até mesmo aqui no Brasil a gente sofre com esse tipo de invisibilidade. Nem sempre apenas no meio acadêmico, nas rodas de conversa ou até mesmo na rua a gente experimenta isso. Acho que, em geral, as pessoas esqueceram os valores que conversas pessoais têm; tudo se resolve e se aprende pela internet, a informação que encontramos nela quase sempre é dada como absoluta. As pessoas preferem usar a internet pra saber de alguma coisa pelos amigo, família, etc. do que perguntar diretamente pra quem estava lá e viu o ocorrido, por exemplo. Não sei se me fiz entender muito bem mas acho que posso resumir assim: como trocar dados, informações ou curiosidades de um país recebidas de um nativo por notícias ou post na mídia social? Eu prefiro mil vezes conversar com quem viveu ou vive uma situação e entender a realidade do que me prender a fatos que vejo na tela do meu computador.

    • Obrigada pelo comentário Carol! Concordo com você, por isso tenho um monte de amigos internacionais por aqui, amo conhecer pessoas e culturas diferentes, cara a cara. Se eu não puder um dia visitar todos os países pelo menos sei um pouquinho mais sobre eles.

  3. Nossa, complicado! Eu estou tentando ir para os Estados Unidos pelo Ciências sem Fronteiras e morro de medo de isso acontecer comigo também. Mas acho que é algo meio inevitável, não é? Mas o meu maior receio não é o preconceito pela minha nacionalidade e sim pela minha raça. Acho que esse tipo de preconceito é bem mais doloroso. Foi até pensando nisso que das três universidades que eu prestei nenhuma está no sul dos States.
    Mas por outro lado eu fico pensando na minha universidade aqui no Brasil. Na minha turma há alguns estrangeiros e eles sempre ficam à margem. Eu sei que os brasileiros são conhecidos por serem mais abertos, mais sociáveis, mais receptivos mas isso não é o que eu vejo acontecer na minha sala. Eu fiz um amigo do Congo e eu vejo como as coisas são difíceis para ele. Minha sala é cheia de panelinhas (e olhe que e a maioria das pessoas são tão ignorantes… Talvez a gente olhe para os outros países e pense como aqui no Brasil as coisas são diferentes. Mas será mesmo? Provavelmente numa escala bem menor, mas as pessoas aqui também tratam os outros como invisíveis.

    http://ivelipaula.wordpress.com/

    • Iveli, eu acho que isso é parte do choque cultural que você tem quando vai para outro país. Querendo ou não, a estrangeira aqui sou, o melhor que posso fazer é tentar entender o pensamento cultural dos americanos e me adaptar.
      Não sei se é porque eu fiz Relações Internacionais, mas nós realmente não tratavamos diferente nossos colegas estrangeiros, na verdade era bem legal ter eles por perto.
      Toço para que você alcance sucesso no seu programa de intercâmbio. Não tenha medo, podem ser que as coisas sejam meio estranhas de início, mas sempre vai ter aqueles que se interessam.

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